A fala \u00e9 de Daniel Veiga, roteirista, dramaturgo, ator e professor da Academia Internacional de Cinema (AIC) no Curso T\u00e9cnico – Filmworks,\u00a0<\/a><\/p>\n
Daniel tem participa\u00e7\u00e3o na sala de desenvolvimento de sitcom pela produtora Floresta<\/a><\/strong>, na sala Narrativas Negras<\/strong> pela Paramount<\/a> e no Colaborat\u00f3rio Criativo<\/a><\/strong>, uma iniciativa da AFAR Ventures<\/strong> em parceria com a NETFLIX<\/strong>.<\/p>\n
Como ator j\u00e1 acumulou mais de 20 anos de experi\u00eancia e foi premiado com o KIKITO<\/a> (Festival de Cinema de Gramado), o Araibu (Festival de Cinema do Vale do Jaguaribe<\/a>) e o Trof\u00e9u Vento Norte. Al\u00e9m de participa\u00e7\u00f5es nos seriados 3%<\/a> do Netflix e LOV3<\/a> da Amazon.<\/p>\n
Tamb\u00e9m \u00e9 um dos dos cofundadores do CATS – Coletivo de Artistas Transmasculines<\/strong>,<\/a> que busca promover representatividade e empregabilidade de artistas transmasculines em v\u00e1rias formas de express\u00e3o.<\/p>\n
Eu vejo que cada vez o tema acerca do g\u00eanero e as narrativas trans t\u00eam ganhado espa\u00e7o, sobretudo na fic\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m acredito que, em termos de fic\u00e7\u00e3o, essas narrativas est\u00e3o come\u00e7ando a evoluir e ficar mais naturais e flu\u00eddas.<\/em><\/p>\n
Mas esse movimento ainda acontece de forma muito lenta, sempre gra\u00e7as ao tremendo trabalho que n\u00f3s, artistas trans, temos empenhado. Ainda enfrentamos muitos conflitos e fal\u00e1cias, como as acusa\u00e7\u00f5es de que somos censores ou as produ\u00e7\u00f5es que insistem em sequestrar nossas narrativas nos ignorando no processo de feitura da obra.<\/em><\/p>\n
H\u00e1 uma grande resist\u00eancia e sinto que ainda n\u00e3o conseguimos fazer com que as pessoas cisg\u00eaneras entendam que nossa pauta e nossas demandas s\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 art\u00edsticas, mas tamb\u00e9m pol\u00edticas e econ\u00f4micas.<\/em><\/p>\n
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Ainda s\u00e3o pouqu\u00edssimos os profissionais trans circulando nesses espa\u00e7os, menos ainda nos lugares de tomadas de decis\u00e3o. E isso porque eu estou falando de S\u00e3o Paulo, que \u00e9 onde a coisa acontece. Em pleno 2023 o Brasil tem apenas 1 roteirista chefe de sala trans e eu posso contar nos dedos quantos roteiristas homens trans somos.<\/em><\/p>\n
Se falarmos de interseccionalidades como transgeneridade e ra\u00e7a, as estat\u00edsticas s\u00e3o ainda mais terr\u00edvel. E isso n\u00e3o significa que esses artistas n\u00e3o existam. Esses artistas simplesmente s\u00e3o ignorados. Sem contar os potenciais talentos que sequer chegam a ser descobertos por conta de toda viol\u00eancia envolvendo vidas trans.<\/em><\/p>\n
Somos uma popula\u00e7\u00e3o cuja adolesc\u00eancia, em grande parte, \u00e9 expulsa de casa aos 14 anos. Somos uma popula\u00e7\u00e3o com 82% de evas\u00e3o escolar antes do Ensino M\u00e9dio. Nossa expectativa de vida permanece em 35 anos e o Brasil ainda lidera o ranking de assassinatos de pessoas trans. Como considero a arte pedag\u00f3gica e o entretenimento revolucion\u00e1rio, \u00e9 urgente que a cisgeneridade assuma sua parcela de responsabilidade nesta cadeia cruel e se alie \u00e0 transgeneridade, trazendo cada vez mais artistas trans para trabalhar consigo e contar suas hist\u00f3rias por meio de seus pr\u00f3prios corpos com trabalho, cach\u00ea, pr\u00eamios, reconhecimento e por a\u00ed vai. Somente assumindo o protagonismo de nossas narrativas, mostraremos ao mundo quem somos de verdade \u2013 e de mentira.<\/em><\/p>\n
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Quando vejo um artista cis, por exemplo, abrir m\u00e3o de um papel trans e evitar a pr\u00e1tica do transfake \u2013 quando um ator cis faz um personagem trans \u2013 \u00e9 muito mais para evitar um potencial cancelamento do que por consci\u00eancia do real significado do qu\u00e3o prejudicial esta pr\u00e1tica \u00e9, n\u00e3o s\u00f3 para artistas trans, mas tamb\u00e9m para o p\u00fablico trans do outro lado da tela. Al\u00e9m disso, garantir que atores e atrizes trans representem personagens trans \u00e9 apenas uma parte pequena da luta. A luta \u00e9 para que artistas trans estejam em TODOS os lugares, incluindo os de cria\u00e7\u00e3o, os de tomadas de decis\u00e3o a at\u00e9 fazendo aqueles papeis cuja natureza do g\u00eanero n\u00e3o importe (eu mesmo s\u00f3 tenho atuado personagens em que n\u00e3o importa se s\u00e3o homens cis ou homens trans). Precisamos ocupar, portanto, os lugares de roteiristas, diretores, fot\u00f3grafos, produtores executivos, etc.<\/em><\/p>\n
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Certamente eu tenho o olhar mais agu\u00e7ado e treinado para entender as demandas e discuss\u00f5es de alunos trans, porque essa \u00e9 minha viv\u00eancia, este \u00e9 o meu corpo. E tamb\u00e9m discuto com propriedade a produ\u00e7\u00e3o audiovisual que tem a popula\u00e7\u00e3o LGBTQIAP+ – sobretudo a trans \u2013 como tema e\/ou como realizadora, n\u00e3o por ser trans, mas porque esse \u00e9 meu campo de estudo j\u00e1 h\u00e1 alguns anos. A quest\u00e3o \u00e9: sou completamente apaixonado por dar aula porque eu acredito de verdade na troca. Me considero menos professor e mais um artista com certa experi\u00eancia que gosta de trocar com outros artistas com certa experi\u00eancia. N\u00e3o \u00e9 mentira nem demagogia quando declaro que eu sempre aprendo quando ensino. Estou \u00e0 frente de salas de aulas desde 2019 e sempre fui muito respeitado. Al\u00e9m disso eu amo o que eu fa\u00e7o e acho que isso fica \u00e0 vista de todo mundo.<\/em><\/p>\n
Eu sou uma pessoa do di\u00e1logo, antes de tudo. Se n\u00e3o fosse, n\u00e3o daria aula, ainda mais de dramaturgia. Entendendo que cada um tem seu tempo e contanto que sua vida n\u00e3o esteja em risco, acho important\u00edssimo que artistas trans assumam e reforcem sua identidade e posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica sempre que puderem. Mais que isso, acho estrat\u00e9gico.<\/em><\/p>\n
Cada artista que assume que \u00e9 trans \u00e9 mais uma pessoa trans vista nas telas no dia a dia. Hoje em dia, voc\u00ea chega do trabalho, vai preparar a janta enquanto deixa rolar a novela das sete e BAM! Tem um corpo trans e preto lindo e talentoso l\u00e1 [em refer\u00eancia a Alan Oliveira<\/a> na novela Vai Na F\u00e9!]. Voc\u00ea bota um filme ou uma s\u00e9rie no Streaming e tem uma hist\u00f3ria sexy e envolvente, um suspense porreta, uma com\u00e9dia rom\u00e2ntica ou um terror de dar medo e s\u00e3o todos protagonizados por corpos trans de verdade, feitos por artistas assumidamente trans.<\/em><\/p>\n