Se voc\u00ea acha que n\u00e3o sabe o que \u00e9 narrativa transm\u00eddia<\/a>, grandes s\u00e3o as chances de n\u00e3o saber s\u00f3 que ela tinha esse nome. Com certeza, algum filme ou s\u00e9rie que voc\u00ea assistiu recentemente fez uso desse recurso em suas hist\u00f3rias, de uma forma ou outra.<\/p>\n
A escolha de como contar uma mesma hist\u00f3ria com elementos que se interligam perpassando diferentes meios requer muito talento do cineasta<\/strong> e, sobretudo, do roteirista<\/a>. Em alguns casos, h\u00e1 um p\u00fablico espec\u00edfico e cativo que deve ser agradado, o que nunca \u00e9 f\u00e1cil, j\u00e1 que essas pessoas podem ter um conhecimento profundo da hist\u00f3ria original.<\/p>\n
Abaixo, voc\u00ea confere a conceitua\u00e7\u00e3o da narrativa transm\u00eddia, assim como dicas para sua aplica\u00e7\u00e3o em roteiros<\/a>. Tamb\u00e9m vamos fazer uma breve an\u00e1lise da mec\u00e2nica que existe por tr\u00e1s de uma adapta\u00e7\u00e3o como essa e dar exemplos de como aplicar. Leia at\u00e9 o fim!<\/p>\n
A sutileza do racioc\u00ednio dos seres humanos atinge n\u00edveis em que \u00e9 poss\u00edvel contar hist\u00f3rias<\/a> apenas sugerindo acontecimentos. Em alguns casos, pode-se tamb\u00e9m optar por tramas mais densas, recheadas de detalhes e dados, coisa que os document\u00e1rios fazem muito bem.<\/p>\n
A narrativa transm\u00eddia consiste na utiliza\u00e7\u00e3o de <\/strong>diferentes modelos criativos para contar uma \u00fanica hist\u00f3ria<\/strong><\/a>. Mas cuidado: n\u00e3o a confunda com a adapta\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a transposi\u00e7\u00e3o de uma hist\u00f3ria presente em um meio para outro, com os ajustes que o novo m\u00e9todo requer.<\/p>\n
Nas obras cinematogr\u00e1ficas, h\u00e1 v\u00e1rios motivos para estender uma hist\u00f3ria a v\u00e1rias m\u00eddias. Por exemplo, \u00e9 poss\u00edvel aprofundar as an\u00e1lises psicol\u00f3gicas de um ou mais personagens<\/strong> que poderiam parecer excessivamente planas em um longa-metragem de menos de duas horas de dura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n
O cinema produzido nos dias atuais, mesmo aquele mais notadamente comercial, criou uma demanda no p\u00fablico. As pessoas se envolvem com seus protagonistas e antagonistas em n\u00edveis mais profundos que antigamente<\/strong>, muito em fun\u00e7\u00e3o do momento efusivo que vivem as s\u00e9ries produzidas por servi\u00e7os de streaming, como a Netflix<\/a> e a Amazon Prime V\u00eddeo.<\/p>\n
H\u00e1 uma s\u00e9rie de situa\u00e7\u00f5es em que vale a pena recorrer a uma narrativa transm\u00eddia. Em geral, ela n\u00e3o \u00e9 algo f\u00e1cil de se fazer, mas, se bem utilizada, essa t\u00e9cnica pode ser muito bem-sucedida em algumas situa\u00e7\u00f5es:<\/p>\n
H\u00e1 outras maneiras menos comerciais de aplic\u00e1-la, mas \u00e9 bom ressaltar que a narrativa transm\u00eddia exige um pacto ficcional profundo. Afinal, ela costuma propor hist\u00f3rias longas e esmiu\u00e7ar detalhes que as narrativas comuns deixam passar despercebidos.<\/p>\n
Observada essa ressalva, n\u00e3o \u00e9 exagero dizer que n\u00e3o h\u00e1 limites para a aplica\u00e7\u00e3o da narrativa transm\u00eddia. Ela depende apenas de um trabalho cuidadoso e criativo da equipe de roteiro, antes de mais nada.<\/p>\n
Para explicar como a narrativa transm\u00eddia funciona, ningu\u00e9m melhor que o pr\u00f3prio criador do conceito, Henry Jenkins, que o cunhou em 2009, no seu livro Cultura da Converg\u00eancia<\/em>:<\/p>\n
“Uma hist\u00f3ria transm\u00eddia desenrola-se por meio de m\u00faltiplas plataformas de m\u00eddia, com cada novo texto contribuindo de maneira distinta e valiosa para o todo. Na forma ideal de narrativa transm\u00eddia, cada meio faz o que faz de melhor \u2014\u00a0a fim de que uma hist\u00f3ria possa ser introduzida num filme, expandida pela televis\u00e3o, romances e quadrinhos; seu universo possa ser explorado em games ou experimentado como atra\u00e7\u00e3o de um parque de divers\u00f5es.”<\/p><\/blockquote>\n
Logo, para que ela funcione \u00e9 necess\u00e1rio, antes de tudo, planejamento. O sucesso desse tipo de estrat\u00e9gia consiste em desdobrar uma hist\u00f3ria em v\u00e1rias partes e, com base na natureza de cada uma dessas partes, escolher a melhor m\u00eddia<\/strong> para represent\u00e1-la.<\/p>\n
Suas possibilidades pr\u00e1ticas s\u00e3o muitas: ela pode subsidiar uma campanha publicit\u00e1ria que se desenvolve em textos, imagens e v\u00eddeo, por exemplo.<\/p>\n
Como fazer uma narrativa transm\u00eddia?<\/h2>\n
Esse tipo de narrativa deve ser planejada, como dissemos acima. Isso porque ela envolve profissionais de diversas \u00e1reas, trabalhando em uma perspectiva multidisciplinar.<\/p>\n
Ent\u00e3o, o mais dif\u00edcil n\u00e3o \u00e9 pensar o que vai acontecer e em que meio art\u00edstico, mas certificar-se de que haja uma coer\u00eancia est\u00e9tica entre as partes<\/strong>, coisa que s\u00f3 acontece com uma equipe muito integrada.<\/p>\n
Isso pode ser conseguido quando o roteiro ou, pelo menos o brainstorming<\/em> que dar\u00e1 origem a ele, for elaborado em grupo. Se n\u00e3o for poss\u00edvel juntar toda a equipe, experimente marcar reuni\u00f5es setoriais com todos os roteiristas envolvidos, permitindo que eles discutam detalhes e conceitua\u00e7\u00f5es importantes para a coer\u00eancia da trama como um todo.<\/p>\n
Outro ponto importante \u00e9 uma revis\u00e3o atenta para evitar furos no roteiro<\/strong>. Muitas narrativas transm\u00eddia envolvem lapsos temporais, como quando troca-se de m\u00eddia e volta-se no tempo para contar a hist\u00f3ria de algum personagem ou uma sequ\u00eancia de acontecimentos que levou a uma decis\u00e3o importante de um deles.<\/p>\n
Mesmo que grandes audi\u00eancias sejam relativamente tolerantes com furos no enredo, a aus\u00eancia deles quase sempre \u00e9 o que diferencia um bom filme de uma obra memor\u00e1vel. Uma narrativa transm\u00eddia bem fechada prende a aten\u00e7\u00e3o das pessoas e as conquista como nenhum outro recurso t\u00e9cnico cinematogr\u00e1fico.<\/p>\n
Os filmes da Marvel utilizam narrativas transm\u00eddia?<\/h2>\n
Tamb\u00e9m conhecida como “Casa das Ideias”, a Marvel Comics, que come\u00e7ou como uma editora independente de quadrinhos, passou por um grande processo de renova\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e de pensamento nos \u00faltimos 15 anos.<\/p>\n
O in\u00edcio de suas atividades data da primeira metade do s\u00e9culo 20, mais especificamente do ano de 1939. Ao que tudo indica, daqui a 19 anos, a Marvel deve comemorar seu centen\u00e1rio em grande estilo, como uma das maiores e mais revolucion\u00e1rias produtoras de conte\u00fado<\/a> de todos os tempos.<\/p>\n
A narrativa transm\u00eddia na Saga do Infinito<\/h3>\n
Contando apenas os longas, foram lan\u00e7ados 32 filmes da saga. H\u00e1, ainda, s\u00e9ries, anima\u00e7\u00f5es e quadrinhos que se relacionam direta ou indiretamente com os eventos descritos nos filmes e suas consequ\u00eancias, o que torna dif\u00edcil dizer exatamente quantas publica\u00e7\u00f5es e outras obras secund\u00e1rias est\u00e3o inclu\u00eddas.<\/p>\n
V\u00e1rias s\u00e3o as an\u00e1lises de cr\u00edticos conceituados que afirmam que a narrativa transm\u00eddia foi o grande trunfo da Marvel e da Disney<\/strong> \u2014\u00a0empresa que adquiriu os direitos da Marvel Entertainment Group, bra\u00e7o da editora fora do mundo dos quadrinhos \u2014\u00a0para chegar a tantos f\u00e3s antigos e, ao mesmo tempo, fidelizar novos espectadores.<\/p>\n
\u00c9 curioso notar como apreciadores de quadrinhos muito exigentes com as hist\u00f3rias que leram na juventude e um p\u00fablico at\u00e9 certo ponto leigo coexistem muito facilmente nas salas de cinema da Marvel, sem que nenhum dos dois tipos se desinteresse pelos filmes.<\/p>\n
A Saga do Infinito apostou em uma f\u00f3rmula interessante para conseguir esse feito: a cria\u00e7\u00e3o de obras que se completam mutuamente, mas que, separados, t\u00eam exist\u00eancia pr\u00f3pria<\/strong>. Ent\u00e3o, \u00e9 poss\u00edvel compreender as hist\u00f3rias em uma perspectiva macro (o duelo dos her\u00f3is contra o vil\u00e3o Thanos) ou micro (suas origens e dificuldades locais).<\/p>\n
A import\u00e2ncia das cenas p\u00f3s-cr\u00e9dito<\/h3>\n
Pequenos trechos narrativos que aparecem depois da exibi\u00e7\u00e3o dos cr\u00e9ditos cinematogr\u00e1ficos n\u00e3o foram inven\u00e7\u00e3o da Marvel. No entanto, foi na Casa das Ideias que elas come\u00e7aram a ser utilizadas a favor da narrativa transm\u00eddia.<\/p>\n
Passagens que poderiam causar confus\u00e3o, se utilizadas no meio dos longas (afinal, nem todos os espectadores estavam familiarizados com a saga em sua extens\u00e3o) passaram a ser exibidas depois de terminados os filmes.<\/p>\n
Via de regra, a fun\u00e7\u00e3o dessas cenas era apresentar a pr\u00f3xima obra ou interligar a hist\u00f3ria que acabara de ser exibida \u00e0 saga<\/strong> como um todo. A f\u00f3rmula deu certo, e tornou-se h\u00e1bito as pessoas esperarem pacientemente nas salas de cinema, ao final dos filmes, pelo momento de receber algum esclarecimento ou antecipa\u00e7\u00e3o a respeito da trama.<\/p>\n
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Tomado em conjunto, o faturamento dos filmes da Casa das Ideias \u00e9 algo sem precedentes na hist\u00f3ria do cinema<\/a> ou na ind\u00fastria do entretenimento em geral. Embora alguns filmes tenham sido questionados isoladamente, \u00e9 incontest\u00e1vel o sucesso da ideia de narrativa transm\u00eddia aplicada \u00e0 trama, naquela que foi a mais ousada aplica\u00e7\u00e3o do conceito j\u00e1 vista.<\/p>\n